Hoje

Nesse mundo as pessoas andam fantasiadas: umas de ricos, outras de pobres. Outros são deslocadas. Este é o meu caso. Não me encaixo em nenhum grupo, sou desforme…

Nesta cidade encontrei a mais perfeita imagem do caos. Barulho demais, carro demais, sujeira demais, gente demais. Gente com pressa, gente que não tem tempo de pensar em ser gentil. “O tempo é curto demais para se perder com bobagens desse tipo” – imagino que pensam assim as pessoas enquanto andam pelas ruas. O melhor mesmo é seguir adiante sem olhar para os lados, mesmo porque um minuto de bobeira significa risco de ser roubado, ferido, morto!

De fato, o trabalho é tanto que não há espaço para se pensar em mais nada, a não ser que seja em trabalho porque afinal qualquer idéia que surgir no momento mais inesperado pode ser a chave para um destaque na empresa, uma promoção. Só assim as pessoas adquirem mais responsabilidades, mais trabalho, mais compromissos e se derem sorte, mais uns trocados no bolso. Trocados mesmo, daqueles que não fazem tanto diferença pois não haverá tempo para desfrutá-los de maneira adequada.

Mas isso não acontece com todo mundo não. Claro que não! Há alguns que são diferenciados. Profissionais destacados, muito bem formados, que não só trabalham muito, mas ganham muito também. Eles representam uma fração bem pequena, mas estão lá, de verdade.

E assim, uma vez dentro desse jogo, o mais difícil não é sair, é encontrar o equilíbrio.

Nesse “mundo”… as pessoas perderam sua essência. Andam robotizadas e fazem coisas automaticamente. Há os que juram que não. Este não é o meu caso. Sou meio disso e meio daquilo… estou sem parâmetro do ideal. Mas tenho consciência que assim não me satisfaço.

Eu quero mais, mas quero outra coisa. Quero algo mais humano, mais sensato, mais vivo…

Para pensar e enlouquecer um pouco…

“(…) Se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala.”


José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira. Ed. Companhia das Letras, p. 84

*”Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara.”

* citado de um fictício “Livro dos conselhos”.

Fiquei sabendo esse final de semana que o Fernando Meirelles, diretor brasileiro de cinema, que já dirigiu filmes como O Menino Maluquinho 2 – A Aventura (1998), Domésticas (2000), Cidade de Deus (2002), prepara agora uma nova obra: Blindness. A notícia é interessante, mas se tornou muito mais quando fiquei sabendo que o filme é baseado no livro “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago.

A importância da notícia é que ela representa o resgate de uma das minhas leituras mais reveladoras. Ensaio sobre a Cegueira revela a verdadeira essência – se é que essa é a palavra exata para expressar a idéia – do ser humano.

Pois afinal, somos todos cegos, pois somos incapazes de enxergar além de uma palmo na frente de nosso narizes! É impressionante. E isto está explícito em todos os lugares, em todos os momentos, nas coisas mais banais. O romance nos mostra o desmoronar completo da sociedade que, por causa da cegueira, perde tudo aquilo que considera como civilização mais que comentar as facetas básicas da natureza humana à medida que elas emergem numa crise de epidemia, o livro mostra a profunda humanidade dos que são obrigados a confiar uns nos outros quando os seus sentidos físicos os deixam.

O brilho branco da cegueira ilumina as percepções das personagens principais, e a história torna-se não só um registro da sobrevivência física das multidões cegas, mas também das suas vidas espirituais e da dignidade que tentam manter. Mais do que olhar, importa reparar no outro. Só dessa forma o homem se humaniza novamente.

  • “Quando o médico e o velho da venda preta entraram na camarata com a comida, não viram, não podiam ver, sete mulheres nuas, a cega das insônias estendida na cama, limpa como nunca estivera em toda a sua vida, enquanto outra mulher lavava, uma por uma, as suas companheiras, e depois a si própria.”

Versão cinematográfica

O filme será uma co-produção nipo-canadense-brasileira e será falado em inglês, com o título Blindness. José Saramago já teria aprovado a idéia, segundo revela o produtor canadiano Niv Fichman. A produção conjunta pretende evitar «uma voz dominante» e visa ainda impedir que o filme caia nas mãos de um grande estúdio de Hollywood, conforme referiu Niv Fichman. O filme «Blindness» será falado em inglês e está orçado em 20 milhões de dólares. No elenco, Julianne Moore ) representará o papel principal (conhecida como a Mulher do Médico, pois os personagens do romance não são nomeados) e o papel do seu marido (o Médico) caberá a Mark Ruffalo ( Brilho eterno de uma mente semlembranças). As gravações começaram em meados de 2007, nos arredores de Toronto e de São Paulo, devendo ser lançado até Março de 2008. O diretor Fernando Meirelles criou um blog onde relata informações, curiosidades e o dia-a-dia das gravações do filme: www.blogdeblindness.blogspot.com.

Confiram!

A pergunta do dia

O que realmente vale a pena?
Ter pouco e ter calma? Ou ter um pouco mais que pouco e não ter tempo nem pro corpo e nem pra alma? Num primeiro momento e, se fosse para responder de pronto, a resposta poderia ser de cara, ter pouco, é lógico!
Mas ter um pouco mais que pouco pode significar conhecer tantas outras coisas e vivenciar tantos outros momentos que só com pouco não seria possível.
E o simples fato de saber ser capaz de ir além possa justificar a escolha por um pouco a mais de falta de tempo…mas pleno gozo da descoberta e completa satisfação de voltar cheia de histórias pra contar.
No final, está claro que tudo não passa de escolhas. Escolher um pouco mais que pouco agora preenche, amanhã já não sei.